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Oportunidade sanitária

Contradizendo o humor geral da coluna, quase nunca otimista, acho que dá para festejar uma briga meio solitária pela cidadania. O Sr. Nelson Barros está inconformado com a situação de descalábrio sanitário dos que nos servem comida aqui em Ourinhos. A vigilância sanitária esteve em seu estabelecimento, estabeleceu prazo para que fizesse obras e nunca mais voltou. Enquanto isto, vê pela janela o rapaz do carrinho de lanches lavando a louça e o cachorro na mesma torneira pública. Está indo à imprensa, já foi à Câmara e já tentou falar com os representantes da Prefeitura.

Ele é um dentre vários trabalhadores que recebe a mesma mensagem da Prefeitura: não adianta obedecer à lei. É, em escala diferente, uma coisa parecida com o que acontece numa sala de aulas. Vamos supor um professor que estabelece um prazo (razoável e discutido com os alunos) para recolher trabalhos e depois esquece ou cede e aceita atrasos. Se da primeira vez metade da sala entrega no dia certo, da próxima vez que marcar trabalho só um ou outro aluno vai cumprir seu prazo. Na terceira vez o coitado vai ter um trabalhão para conseguir que alguém o respeite.

O que a vigilância sanitária municipal fez com o Sr. Barros foi parecido com o professor do nosso exemplo. Ele é sério e ficou irritado, claro. Foi determinado um prazo para que seu estabelecimento se adequasse à norma, ele tomou providências e investiu na sua estrutura, elogiando inclusive a iniciativa da Prefeitura e achando que agora a situação sanitária em Ourinhos estava no caminho da melhora. Ledo engano, foi só uma visita esporádica, por certo esquecida em meio à inoperância.

Enquanto isto, todos os outros continuam fazendo as coisas do jeito que lhes dá na veneta. Uns porque nunca receberam a presença da vigilância, permanecendo no abandono. Outros porque já se acostumaram com a rotina de “trabalho” dos fiscais, que aparentemente vêm e vão sem efetividade.

Volto à mesma tecla: fiscalizar mal é um convite à desobediência e à sensação de impunidade na qual vivemos. O caso que estou contando é só um grão de areia na praia em que se banham os deputados da pizza. Os cidadãos têm que ter alguma noção de ordem, senão a bagunça vai se alastrando de maneira incontrolável. Volto também à outra tecla: a ordem boa é razoável e, sim, democrática.

A palavra agora está com a vigilância do município. Podem receber as críticas com grandiosidade e melhorar a vida e a saúde da população toda. Ou podem agir com pequenez, infernizando a vida do Sr. Barros. O que se espera é que sejam sérios, respeitando este cidadão que não descansa e ainda confia que o melhor caminho é o da civilidade.

Publicado no Diário de Ourinhos, em 2004.