Esta coluna não é minha!

No feriado saímos, a patroa e eu, para uma pizza com amigos. Voltamos e achei isto no computador:

“Meus donos deixaram esta coisa ligada, de novo. Largado aqui, sozinho, pelo menos vou ser útil e ajudar o Marcello a escrever a coluna dele desta semana. Quem sabe não se toca e me dá um osso de presente. De qualquer jeito, andava mesmo querendo falar sobre um assunto que me incomoda e não quis pedir para ele escrever. É melhor que as pessoas vejam as coisas como eu vejo.

“Ele acha, como outros coitados, que cachorros são animais irracionais, sem consciência superior de si mesmos. Na verdade o que nos faltam são os meios para mostrar nosso intelecto, como voz articulada e mãos para pegar as coisas — digitar isto aqui está sendo um custo que vocês nem imaginam! Numa coisa eles estão certos, dependemos dos nossos donos, e da SAE, para não estorvarmos todo mundo.

“É que não dá para nós mesmos recolhermos o que fazemos quando passeamos. Tem que ter um dono para catar e a SAE para colocar uma lata de lixo onde o dono vai jogar o saquinho plástico com aquilo.

“É muito chato andar pelas calçadas do centro e ter que evitar pisar no que os outros cachorros já não usam mais em seus corpos. Vou pouco para lá, então falo com mais experiência aqui da Lagoa da Nova Ourinhos e do passeio perto da Praça dos Burgueses.

“Não me entendam mal, lembrem que ter cachorro é saudável à beça. Quem tem cachorro vive mais que os que não têm; se viram melhor em situações de tensão; se comunicam melhor, mesmo com humanos; têm menos problemas de coração; e sofrem menos com o stress. Tudo isto eu ouvi o Marcello falando que leu num livro, e deve ter sido um livro bem convincente, porque naquele dia eu ganhei um tecão de costela que lembro até hoje.

“Outra coisa, o dono temque passear com seu cachorro, está certo. Precisamos nos distrair, exercitar o corpo e encontrar os amigos. Eu vejo os que ficam presos o dia todo, coitados, num estado psicológico deplorável, cheios de manias ou então deprimidos. Dá dó.

“Mas custa muito o dono carregar um saquinho plástico?

“Os poucos donos de cachorro que são civilizados topam com o deserto de latas de lixo. Aqui na Lagoa da Nova Ourinhos até que tinha algumas latas, mas elas foram sumindo.

“Há algum tempo tinha bastante mesmo. Na nossa volta diária, dava para o Marcello ir jogando fora os saquinhos sem ter que andar muito com eles cheios daquilo que eu ia “perdendo”. Daí as latas foram sumindo, como eu disse, ao longo do último ano.

“Primeiro as que ficavam em frente à Avenida Luiz Saldanha Rodrigues. Eram estas latas de lixo improvisadas, latões cortados pela metade. Não eram bonitos, mas funcionavam. A SAE, entretanto, achou melhor que não as tivéssemos mais. Por uns meses, o único lugar para jogar algum lixo era uma cestinha, perto do ponto de ônibus. Já era uma situação bem precária, ainda mais se a gente considerar que o pedaço da lagoa em frente à avenida sempre tem gente pescando e passeando. Todo esse monte de gente precisa jogar o lixo em algum lugar, se a SAE não coloca latas fica ainda mais difícil de civilizar o ambiente.

“Daí, há coisa de um mês, a SAE tirou esta única latinha de lixo de perto do ponto de ônibus! Nem quem espera o circular e está comendo uma bolacha não tem onde jogar o saquinho. Eu vi o Marcello ligando diversas vezes para a SAE, tentando alertar e pedindo que colocassem alguma lata ali, mas neca de pitibiriba. Nem quando a Lúcia ligou eles não fizeram nada, e olha que a Lúcia quando fica brava tudo funciona bem aqui em casa.

“O pior ainda foi o que aconteceu durante outubro. A última lata, derradeira sobrevivente da SAE, foi levada embora. Agora estamos, todos que passeamos no lago, sem um único lugar para jogar o lixo. É condenar um parque simpático a ir sendo sujo aos poucos e transformar um cartão postal da cidade em lixão.”

Que mancada, SAE!