Democracia e meios de comunicação

Por conta de um trabalho acabei me informando sobre uma discussão importantíssima que tem sido tratada por técnicos em Brasília e sem muita participação dos maiores interessados, que somos nós. É sobre a adoção da TV digital no Brasil. Parece mesmo assunto para técnicos, mas tem uma face política bem fácil de entender. A mudança de sistemas de TV (do analógico para o digital) permite que mais sinais passem pelas mesmas ondas, cabendo 4 vezes mais informações do que se usa hoje.

Dá para fazer uma de duas coisas: ou a gente mantém a qualidade de imagem e permite a abertura de 4 vezes mais canais do que temos hoje; ou mantém-se os mesmos canais, só que com a imagem melhorada. Este sim, seria um bruta assunto interessante para se fazer um plebiscito!

Explico. O pessoal da Globo, do SBT e das outras redes abertas prefere, claro, deixar as coisas como estão, só melhorando suas imagens. Ter um canal é difícil porque eles são poucos e é caro fazer todas as transmissões e criação de programas, então estas poucas redes de televisão continuam as mesmas desde sempre. Todo mundo sabe o quanto que as redes têm de poder político, é muita concentração!

Agora,
é possível fazer uma estrutura diferente, com muito mais canais e barateando para todo mundo poder fazer programas interessantes em cada região. Daí dá para as escolas terem canais próprios, os sindicatos, as ONGs, as associações de moradores... dá para realmente democratizar a comunicação.

Hoje não é tão complicado montar um programa de TV local, mas ele só passa na TV fechada, que é cara tanto para produzir quanto para assistir. Se for aberto o sinal e tiver uma estrutura estatal para a transmissão, fica muuuito mais barato e fácil para a gente produzir os programas e transmitir para o povo.

Claro que a Globo vai continuar existindo e tendo muito público, pois só ela faz novelas e outros programas tão bem feitos. O SBT, a Record e as outras também têm seus méritos, são todas opções interessantes, às vezes. Mas de vez em quando não dá aquela sensação de que é tudo muito igual? Mesmo quem compra televisão fechada às vezes reclama que tem 80 canais e não passa nada legal. Pois bem, se o governo resolver colocar 4 vezes mais canais na TV aberta e fizer o necessário para baratear a produção, vai ser bem mais fácil o telespectador encontrar alguma coisa útil passando.

A decisão tem um monte de detalhes técnicos, realmente, mas no fundo é isto: ou imagem melhorada ou 4 vezes mais canais à disposição. Simples assim.

O que mais me incomoda é que justamente este governo está tomando a decisão como se fosse técnica. Justo este governo, que poderia enxergar a parte política, importante, da decisão, chamando o povo para ajudar a palpitar. Mas no Brasil inteiro tem gente acordando para a coisa, escrevendo em jornais como agora, se organizando para aprofundar nossa democracia e melhorar nossa vida. Podem até me chamar de otimista (em comparação com algumas outras coisas que já ouvi, parece até elogio), pois eu acho que dá para fazer política assim, junto com o povo e não o enganando.

Nunca é tarde para voltar ao rumo certo.

Publicado no Diário de Ourinhos, em 2004.