Back to top

A meta e o caminho até ela

Um compromisso desmarcado me colocou em frente à televisão na noite da segunda-feira, junto com outras pessoas, assistindo às imagens do caos no estado. A reportagem mostrava um presídio sendo retomado pelos policiais, usando balas de borracha para repelir os encarcerados. Enquanto passava isto, ouvi alguém falando que “tinham de usar é bala de verdade”.

Sei que nestes instantes mais emocionais a gente fala besteira. Já me enrolei bastante pelo que havia falado sob emoção e acabei aprendendo a falar menos, ou ao menos a pesar melhor minhas palavras. Mas não é todo mundo que pensa duas vezes antes de falar ou repetir coisas que ouviu, daí que de vez em quando se escuta uma patacoada destas.

Estamos tentando construir uma sociedade minimamente organizada no país. A situação é inteira difícil e demanda uma vontade imensa de mudar e de trabalhar contra a inércia e contra quem se aproveita da desordem. É desalentador se manter do lado de cá enquanto jorram notícias com sanguessugas, mensaleiros, anões do orçamento, privatizações fraudadas, “rouboanéis” e outras desgraças. Quem não pensa duas vezes fica mesmo com vontade de por fogo no mundo, arrasar toda a nação brasileira e às vezes mesmo a humanidade inteira.

Mas nestes assuntos o caminho que se trilha é tão importante quanto o lugar aonde se quer chegar.

O meu sonho é viver num país mais sério um pouco, onde possa ter certeza de algumas coisas simples, como segurança, serviços públicos (saúde, educação, transporte) com alguma qualidade e tratamento igual para todos, sem ter de ser amigo deste ou do outro para exercer meus direitos. Acho que a maioria dos leitores gostaria de viver assim, não é?

Para isto é fundamental fazer a sociedade brasileira funcionar com eficácia mínima das normas de direito. A maioria das pessoas quase sempre obedece à ordem, o que já é um fenômeno. Mas tem valido à pena desobedecer, infelizmente, então uma minoria joga sujo e acaba se aproveitando do trabalho alheio. Não paro de repetir, entretanto, que o único jeito de construir justiça é forçando todo mundo a obedecer às regras do jogo (desde que todo mundo tenha ajudado a estabelecer estas regras). Do jeito que está, a sociedade funciona para ajudar os trapaceiros; do jeito que eu gostaria que estivesse, ela funcionaria para todos nós.

Se esta diferença é tão importante, parece muito, mas muito besta mesmo, pensar que dá consertar a situação pela violência. O desafio é construir justiça com ordem e brigar pelos próprios direitos através do respeito ao direito dos outros, é o jeito da sociedade inteira lucrar. O que também é desalentador é que parece estar diminuindo o número de pessoas que encara as dificuldades e se mantém no caminho certo, enquanto estaria crescendo a turma que acha bonito dar poder de vida e morte para quem deveria cuidar da segurança de todos, por exemplo.

Se a meta é construir sociedade onde os direitos de todos sejam respeitados, não se pode chegar lá jogando no lixo estes mesmos direitos.

Publicado no Diário de Ourinhos, em 2004.