Collor

A eleição de Fernando Collor foi uma anomalia sob todos os termos nos quais se coloque o assunto, entretanto sua administração foi típica dos governos da América Latina que na época se alinharam com Washington. Sua queda esteve ligada às características da eleição. Um governo brilhante o poderia ter salvo, mas não se podia esperar tanto.

A finalidade de todo regime democrático é proporcionar a participação do povo nas decisões políticas. O meio é a eleição periódica e livre, acompanhada dos direitos políticos básicos (votar e ser votado, liberdade de imprensa, de associação e de manifestação).

Sublinhei o direito de associação porque é este que faz a eleição se traduzir em participação nas decisões. Se votássemos em pessoas sem qualquer vínculo com a sociedade, os eleitos se veriam livres para agir em contrário ao interesse dos eleitores. É famosa a frase americana segundo a qual “você dança com quem te levou ao baile” — o eleito deve ouvir àqueles a quem deve sua eleição.

A liberdade de associação permite que a sociedade se organize politicamente. Desta forma se constroem as alianças que traduzem o apoio político em decisões políticas. O grupo que apóia o candidato, que financia sua eleição, que arregimenta seus votos, que vincula sua imagem à dele, este é a âncora que liga o eleito à sociedade. O eleitor, sozinho, pode pouco, mas um grupo que represente milhares de votos vai ser ouvido no governo com muito maior eficácia.

A relação mais comum até as últimas décadas do século passado era dos políticos com seus partidos. O candidato se vinculava ao programa do partido, ou pelo menos aos seus companheiros. Então, quando eleito, precisaria governar com atenção às tendências do partido, sob pena de perder sustentação em dois níveis: a) para a próxima eleição, no futuro; e b) para aprovar suas propostas no legislativo, durante o governo.

Assim, tanto para ser eleito, quanto para governar e para dar fôlego a projetos de longo prazo, para tudo isto era necessária ligação com os partidos.

A partir da década de 90, nas democracias ocidentais, tem-se visto uma gradual substituição dos partidos por associações menores e mais focadas, as ONGs. Os candidatos já não se vinculam apenas aos partidos, grandes associações nacionais e de interesses gerais, mas que não têm bandeira forte. Eles se vinculam também às ONGs, que representam interesses específicos, porém com grande impacto sobre os eleitores.

Convido o leitor a pensar um pouco como eleitor. O candidato Abel pertence a um destes partidos mais abertos, como o PMDB, por exemplo. Por esta vinculação não é possível dizer como será sua atuação na saúde, na educação, na segurança ou na proteção ao meio ambiente. A candidata Beatriz, do outro lado, além do partido, matém vínculos com ONGs de defesa do meio ambiente, com o sindicato dos trabalhadores na saúde e a associação das escolas católicas. Abel é um candidato de projeto fraco, pelo vazio de suas ligações visíveis com a sociedade. Beatriz tem projeto forte, são visíveis e sólidas suas ligações.

Notem que ter projeto fraco ou forte não significa estar mais próximo ou não da eleição. Se Abel contar com grande apoio financeiro dos planos de saúde privados, por exemplo, ele poderá ser eleito. Apenas seus compromissos não serão visíveis.